sexta-feira, 6 de março de 2009

Rohan Vyas
1994-2007

A leitura desta história comoveu-me profundamente. Não por se tratar de Portugal, nem por se tratar de Cristiano Ronaldo, mas pela força de vontade, pela coragem e pela alegria de viver desta criança.

Em tempos de tanta incerteza, este relato de esperança faz-nos repensar sobre o que é realmente importante nas nossas vidas.

Mas mostra também a responsabilidade que devem ter as figuras que se tornam públicas, nos seus comportamentos e atitudes.

Esperemos que Cristiano Ronaldo esteja á altura de Rohan Vyas.

http://downloads.sol.pt/pdf/tabu.pdf

quinta-feira, 5 de março de 2009

A crise quando nasce é para todos … ou talvez não...

"Eurodeputados vão passar a receber mais do dobro
Depois das próximas eleições europeias de 7 de Junho, com a entrada em vigor do novo Estatuto do Deputado do Parlamento Europeu (PE), os eurodeputados portugueses vão passar a receber mais do dobro do salário que recebiam até agora, no âmbito da harmonização salarial entre todos os deputados europeus. Segundo avança a edição desta quinta-feira do Diário de Notícias, se até aqui recebiam 3815 euros, pagos por Portugal e de acordo com a tabela salarial dos deputados à Assembleia da República (AR), os deputados portugueses eleitos para o PE vão passar a receber 7665 euros. De acordo com as regras ainda em vigor, os eurodeputados são pagos pelo Estado membro de origem e, em regra, segundo as tabelas salariais dos deputados às assembleias nacionais. Neste quadro, entre os mais de setecentos deputados da assembleia comunitária, persistem disparidades salariais que vão desde os 900 euros auferidos pelos deputados búlgaros aos cerca de 12 mil que ganham os italianos, os mais bem pagos de todo o PE.
«Este Estatuto põe fim à violação do princípio de trabalho igual por salário igual», diz ao DN a deputada Edite Estrela, chefe da delegação socialista no PE. Carlos Coelho, deputado social-democrata no PE, concorda com a harmonização entre os deputados dos 27, já que «existia uma desigualdade» entre membros do PE. Ao contrário, Ilda Figueiredo, chefe dos comunistas no PE, alerta que o salário único «não tem em conta as realidades dos vários países», considerando injustificável que «os eurodeputados ganhem mais do que os deputados do seu país», como é o caso de Portugal. Em consequência do novo estatuto, e feitas as contas aos descontos a que são submetidos os salários, os parlamentares portugueses passarão a ganhar, em valor líquido, 5963 euros, quando, até aqui recebiam 2525 euros líquidos por mês. Além disso, a juntar à remuneração propriamente dita, o PE transporta das regras actuais para as que entrarão em vigor depois de Junho, o chamado «subsídio de estadia» aos deputados. Esta ajuda de custo, no valor actual de 287 euros diários, é devida aos deputados «por cada dia de comparência a reuniões oficiais dos órgãos do Parlamento de que o deputado faça parte e que se realizem no interior da EU», lê-se, segundo o DN, no regulamento disponível na sítio da Internet do PE. A esta quantia acrescerá ainda uma outra, de 143 euros, caso a comparência tenha de ser feita fora da UE."
(in “Diario Digital” quinta-feira, 5 de Março de 2009)

É por estas e por outras é que é sempre comovente e tocante ver tantos apelos á moderação salarial, ao congelamento de salários, aos despedimentos, ás rescisões por mutuo acordo, etc, etc, etc …



Depois de termos visto há umas semanas atrás na SIC, Salazar em versão Zézé Camarinha do Vimieiro, só faltava mais esta notícia, publicada na edição online de 05.03.09 do semanário “Sol”…:


“Timor-Leste: Ramos-Horta reconhece Marcelo Caetano como atirador do 11 de Fevereiro «Reconheço Marcelo Caetano» como o atirador do 11 de Fevereiro de 2008, afirmou José Ramos-Horta. «Hesitei muito durante meses», explicou o chefe de Estado, mas no último encontro que o Presidente da República teve com o ex-tenente Gastão Salsinha houve uma identificação positiva. Nesse encontro, «o procurador-geral da República (Longuinhos Monteiro) trouxe também o Marcelo Caetano», contou José Ramos-Horta. «Vendo com mais proximidade, reconheci que foi ele que fez os disparos, para além das provas deixadas no terreno», acrescentou o Presidente, corrigindo várias declarações em contrário feitas ao longo de 2008. O chefe de Estado comentava a acusação formal do caso 11 de Fevereiro, entregue na terça-feira pelo Ministério Público no Tribunal de Díli. «Aguardo pelo desfecho (do caso) que será no tribunal e ali é que as verdades serão ditas e encontradas e que a justiça será feita» , declarou José Ramos-Horta.”


O que virá a seguir? António de Spínola detido em operação-stop? Afonso Henriques visto em bar de alterne? Sebastião José de Carvalho e Melo testemunha no caso Freeport? Infante D. Henrique renegoceia financiamento com a CGD?

Parece que a crise mundial está a ter mais efeitos colaterais do que se pensava …

quarta-feira, 4 de março de 2009

… E ainda faço eu posts a criticar o Carnaval tuga …

Messy fun on Clean Monday in Galaxidi

A couple celebrate Clean Monday yesterday by participating in a colorful flour war in the seaside town of Galaxidi, central Greece. The tradition of throwing flour at each other, colored or plain, marks the end of the Carnival season. In other parts of the country people enjoyed the clement weather with less messy pursuits, such as flying kites, attending village parties.

(in Kathimerni.gr)



Com a devida vénia a Miguel Sousa Tavares, tomo a liberdade de transcrever a sua crónica “Somos tão modernos” publicada na última edição do “Expresso” (28.02.09).

Sinto-me agora mais reconfortado por ver que existem pelo menos duas pessoas neste país que encaram o Carnaval (e outras manifestações de “modernismo”) da mesma forma (mas no meu caso, sem o brilhantismo e a ironia da escrita de MST).

Somos tão modernos

Durante uma boa hora, pelo menos, viveram-se momentos de grande frisson e entusiasmo nas redacções do país: uma notícia de contornos pouco claros (deliberadamente, como se perceberia depois), dava conta de que uma paródia com o Magalhães no Carnaval de Torres Vedras tinha sido proibida. Logo uma legião de mártires pelo jornalismo, desde veteranos sem causas a jovens sem qualquer formação profissional, viu ali uma oportunidade de ouro para sair a espadeirar contra mais uma demonstração do arbítrio e prepotência do Governo. O Governo atrevia-se a proibir piadas de Carnaval ao seu Magalhães - que luxo para o 'jornalismo de combate', que fantástico pretexto para defender a liberdade de opinião ameaçada! E logo com o Magalhães, que, não sei porquê, desde que apareceu é o mal-amado dos bem-pensantes - apesar de ser dos raríssimos casos de um produto tecnológico de valor acrescentado em Portugal, de constituir uma potencial fonte de receitas externas para o país e apesar, sobretudo, de significar a possibilidade de centenas de milhares de jovens alunos saltarem directamente e quase sem custos para a era informática. Vinha mesmo a calhar a censura do Governo às piadas sobre o Magalhães! Afinal, descobriu-se rapidamente, e desfeito o nevoeiro inicial artificialmente criado para atrair as atenções da imprensa, não era nada disso o que tinha sucedido. Uma vulgar cidadã de Torres Vedras, no uso de um vulgar direito de cidadania, queixara-se ao Ministério Público da comarca que as imagens projectadas no ecrã do Magalhães que iria desfilar no corso da terra tinham, em sua opinião, conteúdo pornográfico. E a delegada do Ministério Público, bem ou mal (desconheço as imagens), deu-lhe razão e mandou retirá-las. Logo depois, e ainda a tempo de aparecer nos telejornais da noite, o presidente da Câmara de Torres Vedras desdobrava-se em entrevistas para as televisões, denunciando a censura, o direito violado ao humor, o atentado à liberdade de imprensa e ao prazer dos cidadãos. O homem conquistara os seus quinze minutos de fama e o Carnaval de Torres uma excelente e grátis promoção em horário nobre. "Chico esperto!", pensei para comigo. No dia seguinte, à beira da crucificação pública, a delegada do MP revia a sua decisão e o Carnaval de Torres ficava novamente livre do espectro da 'censura'. Mas o mal - ou melhor, o bem - já estava feito e nos dias subsequentes a imprensa haveria de debitar páginas de inflamada e cívica prosa denunciando as sempre latentes ameaças à liberdade. E o 'povo' de Torres - cuja média de idades me pareceu rondar os 65 anos - não parou de desfilar e debitar o seu veredicto aos microfones das rádios e televisões: "para mim, aquilo não é pornografia". Fiquei aliviado com tanta modernidade e tanta militância pela liberdade. E só não fiquei verdadeiramente entusiasmado porque, no meio das imagens televisivas exibidas, descobri que no Carnaval de Torres - essa genuína manifestação de humor, modernidade e liberdade - iria desfilar também um falo gigante apontado ao céu em estado de alerta sexual e um boneco enorme do Cristiano Ronaldo com um testículo de fora. E, salvo melhor e mais moderna opinião do que a minha, isto não tem nada que ver com humor ou liberdade, mas apenas com boçalidade e mau gosto - e sobre isso não li uma só linha em toda a imprensa. Convém dizer, aliás, que o Carnaval à portuguesa, inspirado nos corsos brasileiros, está para o Carnaval brasileiro como a água-pé está para a caipirinha. É, seguramente, dos momentos em que mais apetece fugir daqui, de tal maneira a exibição do humor luso se torna ridícula, patética e deprimente. O Carnaval brasileiro, no Rio e não só, é um espectáculo cénico e visual exuberante, preparado durante um ano inteiro, reunindo as melhores escolas de samba, os melhores músicos, os melhores letristas e compositores, unidos num tema que tem sempre que ver com a história do Brasil ou com a História Universal (este ano, por exemplo, uma das escolas do Rio assinalava os 200 anos do nascimento de Darwin). Goste-se ou não, o Carnaval brasileiro é hoje reconhecido como uma manifestação cultural de massas única no mundo. O nosso, espalhado por várias terras de 'tradições carnavalescas', não tem nada que ver com isso: é um corso trapalhão e pindérico, 'abrilhantado' por tristes vedetas, histéricas de alegria contratual, e onde os temas são invariavelmente os mesmos: a piada política demagógica e a ordinarice rasca. Parece que isto traz muitos turistas às terras e anima o comércio local: ainda bem. Desejo-lhes longa vida, mas não me obriguem a confundir isto com humor ou liberdade criativa.
Ainda o 'escândalo de Torres' borbulhava na imprensa e já rebentava o escândalo da 'censura' numa feira do livro em Braga. A PSP, chamada por alguns vulgares cidadãos pais de família, no uso de um vulgar direito de cidadania, entendeu apreender alguns exemplares de um livro exposto chamado "Pornocracia" - de que ninguém tinha ouvido falar, mas que tinha a particularidade de reproduzir na capa o célebre quadro "A Origem do Mundo", de Gustave Courbet, um grande plano realista de um sexo feminino. Ai, Jesus, o que os polícias foram fazer! Confundiram uma obra de arte com pornografia, atentaram contra a liberdade do editor, do livreiro e dos organizadores da feira, que outra coisa não visavam do que divulgar a arte e a literatura! O estimável jornal "Público", por exemplo, sempre na vanguarda do politicamente correcto, fez disto um caso gravíssimo e, para mostrar a sua solidariedade com mais esta ameaça à liberdade, deu aos leitores meia página com o Courbet. E, no dia seguinte, claro, a PSP pedia desculpas por ter confundido um "nu artístico" com pornografia. Eu, por acaso, até gosto do quadro e exactamente porque ele é chocante e perturbante. Não é, de forma alguma, um simples nu artístico e foi pintado de encomenda para o não ser: não tem nada que ver, por exemplo, com "La Maja Desnuda" do Goya ou as senhoras anafadas do Rubens. Está na zona indefinível de fronteira entre o erotismo e a pornografia, como as fotografias de Mapplethorpe, dependendo da sensibilidade e da abordagem de cada um. É uma pintura para ser vista no enquadramento que lhe cabe (o museu onde está ou uma exposição onde as pessoas sabem ao que vão), não para ser reproduzida, por exemplo, num cartaz de rua ou num anúncio de televisão. Ora, uma feira é um local público e, tanto quanto sei, quem se queixou foram pais, incomodados com a sua exposição a crianças. E eu acho que eles têm, pelo menos, razões que merecem ser ponderadas, por bom senso e bom-gosto. A desculpa da arte ou do erotismo não serve para tudo. As coisas têm o seu contexto e a sua liberdade própria. A liberdade de atirar o nu explícito de Courbet à cara de quem passa e o não procurou, de um pai indefeso que passeia uma criança pela mão numa inocente feira de livros, é uma falsa liberdade. Não fosse este novo saloismo de termos o terror de não ser 'modernos', e perceberíamos que a liberdade não consiste em fazer tudo o que se quer, quando isso agride os outros. Mesmo que aquilo que agride os outros seja, para nós, perfeitamente aceitável. Só os ignorantes é que acham que a liberdade é fácil de gerir.

segunda-feira, 2 de março de 2009

Com a noção de toda a subjectividade que esta afirmação encerra, na minha opinião o melhor filme deste ano é "Gran Torino", (mais) uma espantosa obra de cortar o fôlego, sobre intolerância, mas também plena de humanismo da autoria de Clint Eastwood.
O meu conselho a quem ainda não teve oportunidade de o ver é: vejam-no, revejam-no, e voltem a vê-lo.
Isto sim, é cinema.

sexta-feira, 27 de fevereiro de 2009

Confesso que não há nada que mais me deprima do que assistir, ainda que por uns breves momentos na televisão, aos cortejos carnavalescos que por estes dias abundam no País. Nunca os consigo ver por muito tempo, e deslocar-me pessoalmente a um desses famosos "Carnavais á portuguesa" está fora de questão!

Sejamos claros: Os Portugueses não são, nem um povo alegre, nem um povo sorridente, nem sequer um povo com sentido de humor. E muito menos são expontâneos. Ou seja, nada daquilo que faz a essência do Carnaval, faz parte da nossa natureza.

Somos um povo de poetas que enaltece a desgraça e o infortúnio, torturados pela angústia pela dor e pela miséria, que tem o fado como canção nacional e cujos expoentes máximos do humor em 9 Séculos de história foram o António Silva nos anos 40 e o Herman José nos anos 80. Convenhamos que é pouco …

Isto não é bom nem é mau. Cada um nasce para o que nasce, e é o que é. O problema é o que resulta quando queremos importar á força tradições que pouco tem a ver connosco (qualquer dia falaremos sobre os estudantes universitários que se arrastam qual corvos de capa e batina, pelas ruas de Lisboa …).

A alegria e a expontaneidade única que o Carnaval brasileiro tem, o ritmo natural quando dançam, a beleza única da mulher brasileira, tudo isso é substituído em terras lusas por meia dúzia de carros alegóricos pobremente decorados, com uma musica de fundo que nem se percebe, um conjunto de cartazes que na melhor das hipóteses é composto por ditos de baixo nível, e habitualmente com graçolas a roçar a ordinarice, e encimados por um bando de meninas que agitam à força mas sem pinga de ritmo, os seus corpos, regra geral já com alguns quilos a mais e com alguns centímetros a menos.

Para se ter uma ideia do que move os portugueses para estes desfiles basta ouvir o presidente da Câmara Municipal de Torres ao considerar que o Carnaval da cidade foi um sucesso porque 15.000 pessoas se deslocaram á cidade basicamente para ver as mamocas ao léu que apareciam no écran do portátil Magalhães que fazia parte de um dos carros alegóricos, e que esteve no centro de uma polémica com o Ministério Público. Isto diz tudo sobre os visitantes e os visitados …

Mas a cereja em cima do bolo dos corsos carnavalescos que atravessam o nosso país por estes dias, é a presença constante dos homens que se vestem de mulher, aproveitando esta época para sair do armário. É vê-los saltitar pela rua, abanando-se alegremente, para perceber o quão Freud ainda se mantém tão actual.
A este propósito um dos canais de televisão transmitiu há dias o seguinte diálogo entre uma jornalista destacada para a cobertura do cortejo e uma dessas figuras que se agitava pesadamente à sua frente.
Perguntava a jornalista:
- “Então, porque é que está mascarado assim”?
- “Porque gosto” retorquia. “Atiram-me bocas” continuava o personagem mantendo a profundidade que habitualmente estes diálogos contêm.
- “ E o que lhe dizem?” inquiria curiosa a jovem
- “Boazona” ! Afirmava com voz cava o moço
- “E gosta”? continuava ela
- “Adoro”! concluía o pequeno
Enfim …
Querer transpor para Portugal o Carnaval brasileiro só não é mais ridículo porque acaba por ser confrangedor ver os participantes do desfile a bater o queixo de frio querendo convencer-se (e convencer-nos) que Fevereiro em Torres Vedras ou em Loulé é mais ou menos o mesmo que no Rio de Janeiro ou em São Paulo…
Bem mais inteligentes são os alemães e os italianos, que também celebram o Carnaval. Mas agasalhados. O Carnaval de Veneza é dos mais bonitos e originais do mundo. E também dos mais tapadinhos. E já que estámos na Europa e não no Brasil (infelizmente), que bem que deve saber tanta roupinha nestes dias frios de Inverno …